Em uma tarde de nuvens negras e céu escuro, com a
chuva a escorrer entre as roupas já úmidas e a carne moída do cansaço, ventos
suaves como o mais puro sopro divino, o silêncio do eminente perigo que
espreita, apenas esperando sua astúcia lhe intuir os sentidos à direção certa. Seguia-se os intermináveis minutos de agonia
dos mercenários que aguardavam nada se não o pior, sabiam que iriam morrer,
seja ali ou a apenas algumas poucas horas de fuga, não importava, já tinham se
conformado e ditado suas decisões ao mundo. Iriam morrer cumprindo seu dever e
nunca correndo á morte, mas sempre enfrentando-a frente a frente até que um dos
dois saiam erguidos. Tudo o que lhes restava era mundano, não tinham mulheres
ou filhos, apenas as prostitutas e a grande quantia em ouro como recompensa,
isto é, se voltassem vivos da missão.
Apesar de nunca terem se arrependido dos seus atos, por
mais hediondos que fossem, a morte lhes jazia a sentença de arrependimento perpetuo,
como uma forma de pagamento à aqueles que agora choram as lágrimas da desgraça,
do ódio e do sofrimento. Seus corações eram frios, suas carnes gélidas e duras
como pedra, o sangue lhes era quente como a lava a escorrer do vulcão, ditando
o caminho em uma forma imponente e ameaçadora. Ah não, apesar de serem todos os
mais altos lendários mercenários que poderiam ter existido e existirão, eles
tinham suas amarguras, o tempo não poupa nem mesmo os deuses, corrompe até
mesmo a mais forte corrente semeadora da vontade. Começaram a lembrar de suas
infâncias duras como escravos, sendo treinados para matar até mesmo aqueles
mais próximos, e há uma coisa que todo ser não pode negar à sua essência, o
apego à vida, seja por laços ou por uma simples existência, todo ser se apega a
alguma forma de existência, seja mundana ou no eco do tempo. E esse desejo
começava a arder dentro deles, ressuscitando amarguras que seus mestres uma vez
reprimiram na mais profunda parte da alma. Essa amargura era o que os definiam
como lendas, os bastardos de um rei que assassinara a própria mulher em troca
de um pouco de prazer com uma prostituta vaidosa e gananciosa, é essa mesma
amargura que agora os prendia ao mundo, não como mercenários mas como irmãos
que precisavam terminar uma jura de vingança, para somente então darem a suas
almas o descanso no berço da criação.
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